Etapa da peregrinação Quando no início dos anos sessenta, o Pároco de O Cebreiro, don Elías Valiña Sampedro, apregoava o Milagre Eucarístico na sua Igreja de Santa Maria la Real, estava a dar novo alento às antigas peregrinações jacobeias que celebrizaram aquela intervenção divina. Tomou então este encargo como uma missão, organizou congressos, promoveu associações, reconheceu o Caminho e sinalizou-o, pintando setas amarelas, que ainda hoje se têm como a mais conhecida e segura identificação de um itinerário jacobeu.

Fazia mais de dez séculos que multidões de devotos a Santiago peregrinavam ao seu túmulo e só nos anos mais recentes esta prática esmorecera e quase se extinguira.

Com a sinalização do Caminho Francês o fenómeno disparou, aumentando progressivamente, mês após mês, ano após ano, o número de peregrinos que de todo o mundo e nomeadamente da Europa ocorriam a Santiago de Compostela, calcorreando os velhos caminhos que os estudos e as guias sugeriam. Reabrem-se antigos e novos albergues, editam-se roteiros e mapas, proliferam os estudos monográficos, organizam-se congressos e seminários, constituem-se Associações de Amigos, especializa-se, inclusivamente, a oferta turística das cidades históricas servidas por este itinerário. E o sucesso foi de tal dimensão, que em 1987 o Conselho da Europa o galardoa como Primeiro Itinerário Cultural Europeu e em 1993 a UNESCO classifica-o já como Património da Humanidade.

A Xunta de Galicia, consciente da dimensão universal deste entusiasmo e da sua acção catalizadora da integração europeia, decide explorar outros itinerários jacobeus de reconhecido sentido histórico e promover igualmente a sua reutilização. Inicia as diligências com o velho Caminho Português, indiscutivelmente considerado o mais importante das chamadas rotas secundárias, abrindo concurso público para a sua identificação, caracterização e valorização. E no Ano Santo i de 1993 é pela primeira vez divulgado o itinerário entre Tui e Santiago que os Peregrinos preferencialmente utilizavam quando provinham de Portugal.

Este magnífico trabalho foi realizado por uma equipe iida Asociación Galega de Amigos do Camiño de Santiago, que em boa hora entendeu que o Caminho Português não se esgotava na Galiza, e diligenciou todos os esforços para obter apoio na investigação em Portugal. Assim se alargou a equipe, primeiro em Valença, onde nasceu a Associação local dos Amigos do Caminho, e depois em Ponte de Lima. E passados quatro anos de rebuscada investigação e trabalho de campo, foi possível fixar o velho caminho para norte de Ponte de Lima, iniciando-se desde logo os trabalhos para sul daquela vila em direcção a Barcelos e ao Porto.

Actualmente, podemos considerar este itinerário definido e fixado entre o Porto e Santiago e em curso um conjunto de actividades que têm em vista a sua recuperação, sinalização e divulgação, promovidas pela Associação dos Amigos do Caminho Português de Santiago, que tem a sua sede em Ponte de Lima.

A recuperação não envolveu ainda e muito menos de uma forma programada, a totalidade do itinerário, como sucede no troço galego por iniciativa da Xunta. São as respectivas Câmaras Municipais e as Juntas de Freguesia que, por solicitação da Associação, realizam acções pontuais de limpeza e redobram cautelas no licenciamento de intervenções públicas e privadas. Mas outros projectos estão também a arrancar a criação de pelo menos dois albergues de Peregrinos; a proposta de classificação do Caminho Português como Património Cultural; e a edição de um roteiro prático, cartografado a escala conveniente, que será um excelente complemento da Guia recentemente publicada em Pontevedra.

A sinalização poderá vir a ter um carácter definitivo, uma vez que o Caminho tem já uma identificação precária com as inconfundíveis setas amarelas, que o tornam acessível a qualquer caminheiro, prevendo-se ainda acrescentar à indicação de Santiago de Compostela a direcção oposta do Santuário de Fátima, esta talvez com uma seta azul. De facto, o Caminho Português de Santiago, no seu retorno, é um Caminho de Fátima, com afluência crescente de Peregrinos que, por devoção à Virgem Maria prosseguem viagem depois de alcançar Compostela.

A promoção é também um dos aspectos fundamentais para garantir a continuidade das Peregrinações e perpetuar a devoção jacobeia, efectivando-se com a publicitação do crescente movimento que se tem vindo a verificar nos últimos anos, apoiando as iniciativas que vão surgindo e participando em todos os eventos em que este tema se enquadra. Mas também, de uma forma muito particular, com a realização, por parte da Associação dos Amigos do Caminho Português de Santiago, de uma Peregrinação anual na semana precedente da festividade de S. Tiago, que envolve algumas dezenas de participantes, na sua maioria jovens. Esta Peregrinação partiu de Ponte de Lima (156 km) em 1998 e 2000 e de Barcelos (188 km) em 1999, prevendo-se que em 2001 parta finalmente do Porto (243 km), que nesse ano se consagra como uma das Capitais Europeias da Cultura.

Estas deslocações fazem-se por etapas sucessivas de vinte e cinco quilómetros de extensão média, ficando os Peregrinos alojados nos albergues ou nas instalações desportivas que os municípios geralmente cedem quando a dimensão da Peregrinação o justifica. Porto, Vila do Conde, Barcelos, Ponte de Lima, Valença, Porriño, Pontevedra, Caldas de Reis, Milladoiro e Santiago de Compostela são os locais que definem as etapas geralmente escalonadas e que têm maior capacidade de oferta de alojamento, podendo ainda acrescentar-se outros não menos importantes como Tuy, Redondela e Padrón.

A Associação dos Amigos do Caminho Português tem contado sempre nestas iniciativas com a colaboração empenhada do Corpo de Voluntários da Ordem de Malta, que garante um acompanhamento contínuo dos Peregrinos ao longo de todo o trajecto.

Esta colaboração justificou a formalização de um protocolo entre a Associação dos Amigos do Caminho Português de Santiago e a Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem Soberana e Militar de Malta, que contemplou a cedência de uma caravana ao seu Corpo de Voluntários, para ser utilizada no apoio às Peregrinações anuais a Santiago e em todas as iniciativas assistenciais da Ordem, nomeadamente nas Campanhas de Fátima.

Possa, assim, este esforço conjunto do Corpo de Voluntários e da Associação jacobeia contribuir para dar corpo à exortação de Sua Santidade o Papa João Paulo II, quando, em 1992, peregrinou pela primeira vez a Santiago de Compostela:

Eu, Bispo de Roma e Pastor da Igreja Universal, daqui, de Santiago, te lanço, velha Europa, um grito de amor - Volta a encontrar-te! Sê tu mesma, descobre as tuas origens, aviva a tuas raízes, revive aqueles valores autênticos que fizeram gloriosa a tua História e abençoada a tua presença nos outros Continentes!

Santiago de Compostela, 9 de Novembro de 1982
João Paulo II

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